“Adiar o fim do mundo”, ideia do escritor e pensador indígena Ailton Krenak, serviu de ponto de partida para o discurso do presidente da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), Roberto Freire, na abertura do 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge), nesta quarta-feira (26), em Belo Horizonte. Mais do que uma referência à obra de Krenak, a expressão foi apresentada como um chamado à ação: diante dos desafios políticos, econômicos, ambientais e tecnológicos do presente.
Com o tema “A Engenharia e a Defesa da Soberania Nacional”, o congresso reúne engenheiros, representantes de entidades sindicais e profissionais entre os dias 26 e 29 de agosto, no plenário do Crea-MG. O evento tem como missão definir as diretrizes para a atuação da Fisenge e dos sindicatos filiados no próximo triênio.
Ao recuperar as palavras de Krenak, Freire afirmou que a história da Fisenge é também a história de quem escolheu não recuar diante das adversidades. “Fomos capazes de fabular histórias e imaginar outros mundos possíveis. Mais do que contar histórias, fomos capazes de agir”, afirmou.
O presidente da Fisenge fez um balanço das lutas desenvolvidas pela entidade nos últimos anos e relacionou a atuação sindical à defesa da Engenharia, da democracia e da soberania nacional. Entre as iniciativas citadas estão o programa Mais Engenharia, apresentado como política de Estado para valorização e contratação de engenheiros e qualificação da infraestrutura dos municípios, e o projeto de lei “Engenheiro, sim, Analista, não”, que, segundo Freire, reuniu mais de 30 mil assinaturas em defesa da valorização profissional.
Para Freire, a Engenharia Nacional ainda enfrenta os efeitos de políticas que fragilizaram empresas brasileiras, obras de infraestrutura e a política de conteúdo local. Ele defendeu a retomada do papel estratégico de empresas públicas e afirmou que a soberania brasileira passa pela capacidade de o país controlar seus recursos, desenvolver tecnologia e produzir conhecimento.
Ao abordar a Petrobras, o presidente da Fisenge recuperou o histórico slogan “O petróleo é nosso” e propôs sua atualização para “A Petrobras é nossa”, defendendo a empresa como pública e voltada aos interesses da população. Também defendeu a reestatização da Eletrobras.
A soberania, na visão apresentada por Freire, não se restringe aos recursos naturais. Ela envolve a capacidade de o Brasil produzir tecnologia, inovação e conhecimento próprios. Nesse contexto, o debate sobre minerais estratégicos e terras raras ganha relevância, assim como a necessidade de superar uma posição de dependência tecnológica e de simples exportação de commodities.
O discurso de Freire foi apoiado nas demais manifestações da solenidade. O presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de Minas Gerais (Senge-MG), Murilo Valadares, destacou que o principal desafio da categoria é transformar seu conhecimento técnico em reconhecimento social e capacidade de influência sobre as decisões públicas.
“Não nos falta conhecimento, o que falta é a capacidade de transformar esse conhecimento em uma narrativa que chegue também para quem está fora da área técnica”, afirmou. Para Valadares, a Engenharia precisa conquistar legitimidade pública para que sua capacidade técnica seja efetivamente considerada na formulação de políticas públicas e decisões que impactam a sociedade.
A participação da categoria no debate público também foi ressaltada pelo o Diretor de Comunicação e Relações Institucionais do Crea-MG, Eng. Eletricista Luiz Carlos Sperandio Nogueira, representando a presidência da entidade. Para ele, a formação profissional, a tecnologia e a Engenharia são elementos fundamentais para o desenvolvimento e a independência do país. Sperandio também destacou a atuação do Crea na interiorização das atividades e na aproximação com prefeituras, especialmente em áreas como planejamento urbano e infraestrutura.
Representando a CUT, o presidente da Central em Minas Gerais, Jairo Nogueira, relacionou a soberania nacional à defesa dos recursos estratégicos brasileiros. Citou o potencial de Minas Gerais em minerais e terras raras e defendeu que os recursos do país sejam utilizados em favor do desenvolvimento nacional. Funcionário da Cemig, Nogueira também destacou a contribuição histórica dos engenheiros e engenheiras para a construção de uma empresa de referência na área.
Engenharia, democracia e participação social
O discurso de Freire ampliou o debate para além das questões estritamente profissionais. Para ele, a valorização da Engenharia está diretamente relacionada à construção de um projeto de país e à participação da categoria nos espaços de decisão.
“Uma engenharia valorizada significa um país com uma economia pulsante e com desenvolvimento social”, afirmou.
Nesse sentido, a defesa da Engenharia aparece articulada a uma agenda que inclui democracia, direitos trabalhistas, fortalecimento sindical, meio ambiente, transição tecnológica e enfrentamento da emergência climática.
Freire defendeu o fim da escala 6×1 e o direito ao tempo de lazer, convivência familiar e cuidado. Também abordou saúde mental e combate aos assédios nos ambientes de trabalho e reafirmou a luta pela valorização do salário mínimo profissional dos engenheiros.
Em 2026, quando o Salário Mínimo Profissional completa 60 anos, a Fisenge lança um documentário sobre a trajetória dessa conquista. A entidade também defende a criação de um mecanismo de reajuste que preserve o poder de compra do piso profissional.
Tecnologia com responsabilidade
A inteligência artificial foi apresentada como outro dos grandes desafios colocados à Engenharia. Freire afirmou que a Fisenge não se opõe ao desenvolvimento tecnológico, mas defende que sua utilização esteja submetida a princípios éticos e sociais.
Entre as preocupações estão a substituição de trabalhadores por sistemas tecnológicos, os impactos sobre as relações de trabalho e os riscos para a democracia decorrentes do uso indiscriminado das plataformas digitais.
“Não negamos a tecnologia, mas questionamos o seu uso e os seus objetivos”, afirmou.
Para a Fisenge, o debate sobre inteligência artificial deve envolver não apenas especialistas e empresas de tecnologia, mas trabalhadores, sindicatos e sociedade. A entidade defende a regulação social e econômica da inteligência artificial e das plataformas digitais.
Soberania também é democracia
A agenda apresentada na abertura incorpora ainda a defesa do meio ambiente e o enfrentamento da emergência climática. Freire defendeu a participação de engenheiros, agrônomos e geocientistas na construção de políticas públicas em diálogo com movimentos sociais e com povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas.
A programação do Consenge foi construída justamente a partir desses desafios. Ao longo dos quatro dias, o congresso discutirá inteligência artificial e ensino da Engenharia, emergência climática e políticas públicas, mundo do trabalho, ciência, tecnologia e inovação, além de realizar grupos de trabalho e a plenária final para deliberação de propostas.
A solenidade de abertura também foi marcada pela leitura da carta “Por um Consenge sem Racismo, sem Machismo e sem LGBTfobia”, que reafirma o posicionamento do congresso em defesa da igualdade, da diversidade e de um ambiente livre de discriminação.
Presença nas ruas
Ao concluir seu discurso, Roberto Freire retomou a provocação de Ailton Krenak sobre a necessidade de “adiar o fim do mundo”. Para o presidente da Fisenge, adiar o fim não significa esperar passivamente por um futuro melhor, mas construir, coletivamente, as condições para que ele aconteça.
A convocação é para que a Engenharia ocupe os espaços de debate público, dialogue com outras categorias, movimentos sociais e a sociedade e transforme conhecimento técnico em participação política e capacidade de intervenção.
“O tema deste congresso, A Engenharia e a Defesa da Soberania Nacional, deve ser o norte para a agenda de um projeto de nação”, afirmou Freire.
E, retomando a ideia que abriu seu discurso, concluiu com uma convocação à presença e à ação coletiva: “Afirmemos a nossa presença, que é nas ruas.”
O 14º Consenge segue até sábado (29), no plenário do Crea-MG, em Belo Horizonte. A programação inclui debates sobre formação profissional, inteligência artificial, emergência climática, políticas públicas, lançamento de livro e documentário, homenagens, plenária final e eleição da nova diretoria da Fisenge.
Por Adriana Borges – Jornalista
Foto: Fábio Ortolan/FISENGE